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Agrotóxicos para lavouras são usados ilegalmente para tratar mosca-dos-chifres

Inseticidas considerados extremamente tóxicos, e cujo uso deveria ser exclusivo em lavouras, estão sendo vendidos e utilizados de maneira improvisada e ilegal na alimentação de bovinos, em Goiás. Vídeos e áudio aos quais o Portal Metrópoles teve acesso mostram irregularidades na venda desses produtos em casas rurais e, também, na orientação de uso. A ingestão dessas substâncias […]


Agrotóxicos para lavouras são usados ilegalmente para tratar mosca-dos-chifres

Inseticidas considerados extremamente tóxicos, e cujo uso deveria ser exclusivo em lavouras, estão sendo vendidos e utilizados de maneira improvisada e ilegal na alimentação de bovinos, em Goiás. Vídeos e áudio aos quais o Portal Metrópoles teve acesso mostram irregularidades na venda desses produtos em casas rurais e, também, na orientação de uso. A ingestão dessas substâncias tóxicas, no entanto, pode gerar consequências não só para a saúde do animal, mas também para os produtos que ele gera, como o leite e a carne.

De acordo com investigação do Metrópoles, os agrotóxicos Dimilin, TrulyMax e Copa são registrados no Brasil e têm uso autorizado, somente, por meio de pulverização, na agricultura, para controlar larvas e pragas. O que as imagens sugerem, e que inclusive está sendo investigado pela Polícia Civil de Goiás, é a venda recorrente desses produtos sem o receituário agronômico ou veterinário, e seu uso misturado ao sal e à ração do gado.

Ainda de acordo com a reportagem, o objetivo dessa utilização irregular na alimentação de bovinos seria o combate à chamada “mosca-dos-chifres”, parasita que ataca os animais em locais de difícil alcance, que suga o sangue e prejudica a produção e o desempenho do gado. Em uma das gravações, um vendedor chega a ironizar a presença do símbolo de veneno na embalagem e diz: “Esse veneno [que o povo fala] é só balela. Se não, eu não vendo o remédio”.

Segundo a matéria, em agosto de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez a reclassificação toxicológica dos agrotóxicos, no Brasil. De 702, apenas 43 seguiram na categoria de extremamente tóxicos, a mais grave. Mesmo com essa mudança, o Dimilin e o TrulyMax seguiram nesse grupo. O Copa passou para a categoria medianamente tóxico.

Nos vídeos aos quais o Metrópoles teve acesso, os compradores deixam as lojas com unidades de Dimilin e Trulymax tranquilamente, e sem apresentar qualquer receita. A bula do Dimilin, por exemplo, explica que o inseticida deve ser misturado em água e pulverizado na plantação, com uso de equipamentos de proteção. Pessoas devem retornar ao local onde ele foi aplicado somente 24h depois.

Procurado pela equipe de reportagem do portal de notícias, o Conselho Regional de Medicina Veterinária de Goiás (CRMVGO), por meio de nota, explicou que o uso de qualquer substância que não tenha aprovação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para uso ou aplicação em animais pode ter consequências graves no que se refere à saúde dos rebanhos e à humana.

“Produtos utilizados de forma inadequada podem apresentar efeito cumulativo na carne e no leite”, afirma o CRMVGO. Em complemento a isso, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO), informa: “Um produto que tem registro para uso agrícola não deve ser aplicado para uso animal, ainda mais se tratando de ingestão.”

Na reportagem, as autoridades alertam que os medicamentos para uso animal, ao serem autorizados para utilização, passam por testes, estudos clínicos de eficácia e segurança de uso. Ao utilizar inseticidas, cujo uso é previsto na agricultura somente, sem a realização de testes em animais, os efeitos nocivos tornam-se iminentes e desconhecidos.

A lei estipula como infração, nesse caso, tanto o ato do vendedor, ao não exigir a prescrição, quanto do comprador e do prestador de serviços da propriedade rural que aplica, inadequadamente, o produto. A reportagem investigativa destaca que, além disso, a receita deve ser assinada por um profissional habilitado – na agricultura, um agrônomo; na pecuária, um veterinário – e de acordo com as normas vigentes para a utilização. Se feita fora dos padrões, o profissional que assina a prescrição também infringe a lei.

Por fim, o Ministério da Agricultura reforça que o Dimilin, TrulyMax e Copa estão registrados e autorizados no Brasil, mas que devem ser utilizados conforme a indicação na bula e sempre com prescrição profissional.